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Um Pai Natal Solidário - 9.º ano
Por Ana Ribeiro (Aluna, 8ºA Nº1), em 2016/01/07569 leram | 0 comentários | 295 gostam
CONCURSO DE ESCRITA - 2015/16 - Uma vez mais os nossos alunos abriram as portas da imaginação e revelaram grande criatividade.

Um Natal pouco natalício?

Era dia vinte e quatro de dezembro. Dei por mim a caminhar na rua, com a música do meu aparelho eletrónico a bater nos ouvidos, fazendo-se soar por todo o meu ser. Efetivamente, sentia-me ausente do mundo e limitava-me a focar a atenção nas passadas de alguém que seguia à minha frente.
- Boa noite, menino João! Bons olhos o vejam! Boas festas para si e para os seus! – a senhora da boutique fez questão de dizer…
- Pois, o Natal… - respondi-lhe com um sorriso muito pouco verdadeiro.
Decidi retomar o caminho para casa, já que se fazia tarde, e caminhei. Caminhei com a cabeça bem levantada, permitindo-me observar cada edifício, completamente “possuído” pelo Natal, e cada árvore, todas elas despidas pela força do inverno.
A certa altura, olhei de relance para um beco que se situava entre duas casas completamente modernas e natalícias. Foi aí que dei conta de um homem velho, vestido com trapos, que, enrolado num cartão, tremia de frio. Não sei se foi o espírito do Natal (pois para mim era um dia igual aos outros) ou se não, mas enchi-me de tristeza e preocupação e decidi aproximar-me.
- Boa noite! – cumprimentei-o, com uma voz trémula e hesitante.
O homem fitou-me de leve e continuou calado. Talvez não soubesse falar, ou talvez não tivesse uma conversa há muito tempo.
- É dia de Natal e o senhor está aqui! Ao…
- Feliz Natal para ti, rapaz, agora podes ir... – interrompeu-me de uma forma rude, mas, pelo menos, falou.
Fiquei um pouco impressionado, confesso, e cheguei a pensar duas vezes antes de não seguir o tão valioso conselho que os meus falecidos pais sempre me deram: “Não fales com estranhos”. Reparei no olhar de desprezo das pessoas que passavam e que reparavam em nós. Meti a mão ao bolso e notei que tinha sobrado uma nota das compras que havia feito no dia anterior. As horas passavam demasiado rápido, mas, mesmo assim, corri, na esperança de encontrar ainda aberta a tal boutique.
Consegui chegar a tempo! Cumprimentei, agora com palavras, aquela senhora e, com um “Boas Festas!”, agarrei num cachecol, numas luvas e numas meias. Eram peças modestas, mas quentes e dentro do meu orçamento. Paguei tudo e começava a sentir-me orgulhoso de mim próprio…
A senhora entregou-me um embrulho bem bonito, agradeci e dirigi-me para a porta.
- Não vais ter Natal? – sou parado pela voz daquela sempre dócil senhora.
- Não se preocupe, vou fazer com que alguém o tenha, pelo menos uma vez na vida…
Tenho a consciência de que deixei um grande ponto de interrogação na cabeça daquela senhora, mas abandonei a loja.
Corri para casa acompanhado do embrulho e deparei-me com um lugar frio, sem qualquer tipo de decorações natalícias. Agarrei nalgumas latas de conserva, num pacote de batatas fritas e regressei para o local onde se encontrava o meu “novo amigo”, ainda deitado e dominado pelo frio.
- Posso sentar-me? - perguntei.
O senhor acenou com a cabeça, em sinal de consentimento. Sentei-me. Espalhei as latas e a comida que trazia em cima de um pedaço de cartão e entreguei os presentes que havia comprado.
As ruas ficaram desertas, mas nós permanecemos ali, sentados, deliciando a nossa comida um pouco desapropriada para a época.
Estávamos felizes e principalmente acompanhados. Afinal, se não podemos falar com estranhos, como poderemos fazer novos amigos?

Maria Leonor Maia - 9.º D


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